Se a criança foi retirada da família de origem, por que o retorno é prioridade? Essa é uma pergunta legítima e a resposta merece reflexão. O afastamento da criança de sua família de origem acontece quando há violação de direitos e risco, o que exige proteção imediata. Mas proteger não significa apagar a história da criança nem romper vínculos automaticamente. A família de origem é, sempre que possível, o primeiro lugar de pertencimento, onde estão suas referências, sua identidade e sua história.

O acolhimento existe para proteger enquanto se trabalha com a família, com a rede e com a reestruturação desse núcleo, para que aquele ambiente possa voltar a ser seguro. A prioridade do retorno à família de origem não ignora o que aconteceu, mas reconhece que pessoas falham e também podem mudar, aprender e se reorganizar. Em muitos casos, trata-se de uma mãe que também passou por violações de direitos e não teve acesso a apoio ou orientação. Em outros, de um tratamento ao qual a família não conseguiu acesso ou ainda de um genitor que perdeu o contato com seu filho ao longo do tempo. Por isso, cada caso é analisado com cuidado, buscando formas reais e responsáveis de reestruturar aquela família que é referência para a criança.

Quando o risco permanece, outras medidas são tomadas. A primeira delas é a busca pela família extensa, alguém disposto a acolher a criança e mantê-la dentro do seu núcleo familiar, onde estão suas origens, sua história e seus vínculos. Quando isso não é possível, a adoção passa a ser considerada, mas ela não é a primeira resposta, é sim a última alternativa, aplicada somente quando todas as tentativas de reconstrução familiar foram esgotadas.

Proteger uma criança também é respeitar sua história, entendendo que o direito à convivência familiar começa na família de origem. Talvez a pergunta não devesse ser por que retornar, mas por que desistimos tão rápido das famílias. Ao longo dos anos trabalhando com famílias de origem, testemunhamos muitos recomeços. Faz parte do trabalho do acolhimento cuidar da criança e também daquilo a que ela pertence.